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Fórum da Liberdade Insights

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Convidado Especial

Opinião de William Ling sobre o tema

William Ling, primeiro presidente do IEE

     Como você percebe a maturidade da democracia brasileira perante as manifestações que vêm ocorrendo?

     Eu vejo esses protestos e manifestações de modo positivo. Em ambientes mais desenvolvidos politicamente, espera-se haver uma mediação entre o povo e quem está no poder.  Partidos, sindicatos e organizações não governamentais deveriam exercer esse papel de intermediação.  O que está evidente no caso brasileiro é que a oposição foi cooptada pelo governo, e a população não encontra interlocutores para se fazer ouvir. O brasileiro é tido como um povo cordial, avesso a confrontos, tolerante.  O que não significa que não vá às ruas quando se sente desrespeitado por aqueles que deveriam zelar pelos seus interesses.

     Sou crítico da maneira pela qual o Brasil está organizado politicamente. Nosso arcabouço institucional não favorece a existência de um ambiente democrático pleno, estável e inclusivo. Prova disso é a quantidade de emendas que nossa Constituição Federal já recebeu em sua curta existência, ao contrário do que ocorre com outras constituições, como a norte-americana.  Uma das reformas necessárias é a política.  Quando o PSDB estava no governo federal, o PT e outros partidos aliados exerceram uma oposição ferrenha, processo fundamental para o amadurecimento da democracia. Uma reforma política que impeça a supressão do contraditório é essencial.

     Falando em reformas, costumo ouvir que elas não são viáveis porque os brasileiros são imaturos, que a sociedade brasileira não está preparada.  Mas eu pergunto: o que vem primeiro?  Devemos esperar o povo se educar para então poder ter instituições mais desenvolvidas? Não deveríamos primeiro criar condições para que os indivíduos progridam de maneira mais autônoma possível? A classe política e os movimentos mais organizados já estão se apropriando dessa onda de revolta, “atendendo” aos reclames da população com a aprovação de leis e projetos em regime de urgência.  Não são reformas de base, apenas medidas paliativas, marcadas pelo casuísmo e fisiologismo e desprovidas de conteúdo ideológico conceitual.  No modelo em que vivemos, nenhum partido que assume o poder tem projetos de governo, apenas projetos de poder.

     Na sua opinião, quais são as principais causas e reivindicações das manifestações?

     Na minha opinião, o catalizador é a economia.  A Geração Y que foi para as ruas nunca se deparou com crises profundas e duradouras, como os exemplos mais recentes da ditadura e da hiperinflação.  Nos últimos 15 anos, o Brasil surfou a onda da China, promoveram-se grandes transferências de renda para as classes D e E, o país cresceu movido pelo consumo, e todo mundo estava feliz.  Agora a festa acabou: a economia saiu dos trilhos, a renda parou de crescer, a inflação e os tributos continuam em alta, o povo vê que a conta não está mais fechando no final do mês. A carga tributária no Brasil chega a 36% do PIB.  Como a tributação é regressiva, as classes C, D e E devem pagar impostos que beiram 40% de sua renda.  Some-se a isso a inflação, imposto disfarçado que deve representar pelo menos 10% para essas classes, e assim praticamente metade da renda das pessoas de classe baixa e média vai para o governo. E a contrapartida dos serviços públicos continua precária. Isso que os níveis de emprego ainda se encontram elevados, mas eles podem baixar e, nesse caso, a situação ficará muito mais séria.

     Além disso, existem muitas outras causas, como a impunidade, a corrupção, a saúde, a educação em frangalhos e a insegurança. Todas as reivindicações são pertinentes; a questão é como resolver. Uma coisa é apontar o problema, e outra é dizer a solução.

     Você acredita que existem interesses políticos ou de grupos minoritários por trás das manifestações?

     Certamente existe um pequeno número de vândalos e de bandidos que aproveitam para cometer crimes, e que infelizmente acabam atraindo a maior atenção da mídia. Há também grupos partidários, também em minoria, que se beneficiam do momento para a militância política. Acho que a grande massa dos manifestantes é de pessoas desvinculadas de partidos ou grupos organizados, que estão incomodadas com a situação do Brasil, que sentem no bolso os efeitos da crise e querem externar essa insatisfação de alguma forma.  A grande massa está ali por vontade espontânea.

     Você acha que, a partir dessas manifestações, teremos alguma mudança efetiva no Brasil?

     Quando o IEE foi fundado, há quase 30 anos, tínhamos como ideal mudar o Brasil, difundir ideias sobre liberdade e empreendedorismo para transformar o país.  Desde então, o Brasil teve uma série de oportunidades para “ficar direito” que não foram aproveitadas na sua plenitude. 

     A vida me mostrou que as coisas no Brasil só mudam quando a situação fica quase insustentável, mas, ainda assim, as mudanças não se processam de uma maneira profunda e definitiva.  Há sempre uma tendência à acomodação.  O fim da ditadura criou a oportunidade da Assembleia Constituinte, que tinha o mandato para reinventar o Brasil, mas que resultou na Constituição de 1988, um remendo que distribuiu direitos e privilégios sem equivalentes obrigações e que legitima um Estado cada vez mais intrusivo. O Plano Real, as privatizações, a reforma bancária, a lei de responsabilidade fiscal, só aconteceram quando mergulhamos na hiperinflação. Estas manifestações populares mandam um recado forte, haverá avanços, mas acho que não produzirão uma transformação fundamental. Para tanto, o Brasil vai precisar passar por uma crise ainda mais profunda que esta.  O Brasil é assim.

     Uma discussão importante que está sendo deixada de lado é a da reforma do Estado, a definição do papel que o Estado deve exercer. Antes de debater o número de ministérios, deveríamos discutir como limitar a atuação do Estado àquelas questões que só ele pode atender.

     Na Inglaterra dos anos 1980, o governo Thatcher tinha a visão manifesta de reerguer o país, decadente após sucessivos governos intervencionistas e políticas públicas protecionistas. Thatcher foi determinada ao quebrar os monopólios e eliminar os privilégios e as reservas de mercado, e não cedeu aos grupos que não queriam a mudança. Aqui no Brasil é diferente: governos via de regra não são proativos, implementam políticas que não trazem prosperidade sustentável e não promovem ações para aumentar a produtividade, os investimentos e o consequente aumento da renda real do brasileiro.  É um país que, por exemplo, tem um plano de aceleração do crescimento, mas que não investe. Um país onde só há projetos de poder, e não de governo.