PORT | ENG

Fórum da Liberdade Insights

carlos_biedermann.jpg

Convidado Especial

Empreendedorismo, governança e ética

Carlos Biedermann, empresário e Associado Honorário do IEE

Há alguns anos, assessorei um brilhante empreendedor e empresário (sim, a distinção é muito importante) gaúcho a fazer a transição do controle e gestão de sua empresa para um de seus filhos. Ele estava com os dias contados e queria a continuidade do seu negócio.

Um dia antes de sua morte, ele me chamou para uma última conversa no hospital. Em suma, queria saber se tudo o que tínhamos planejado daria certo.

Este momento, inesquecível, marcou para mim o sonho do empreendedor. Ele desejava a perenização do seu negócio.

Naquela época, os conceitos de governança ainda eram incipientes, mas os valores que levam uma organização a ser sustentável no tempo estão presentes desde sempre.

Em outra ocasião, um dos maiores empreendedores que conheci me perguntou por que sua empresa tinha tanto sucesso. Minha resposta veio rápida: a cultura e os valores desta organização são claros e sólidos, podendo senti-los ao se atravessar a portaria de qualquer das suas unidades. Não é preciso colocar quadros nas paredes com Missão, Valores e Princípios se ninguém os pratica.

Porque estou fazendo essas reflexões? Cada vez mais os conceitos da boa governança estão se consolidando. Há muitos temas controversos, mas os princípios estão claros. O código de boas práticas do IBGC prescreve os quatro pilares: transparência, prestação de contas, sustentabilidade e accountability. Porém, atrevo-me a dizer que esses conceitos não se sustentam se não estiverem fundamentados na ética.

É muito difícil que uma organização tenha vida longa se não estiver baseada em tais princípios. Como pode uma empresa que admite trabalhar com “recursos não contabilizados”, que adota práticas fiscais e tributárias ilegais ou que aceita dar “incentivos” a terceiros para ganhar contratos ou vender seus produtos ou serviços exigir, ao mesmo tempo, uma postura correta de seus colaboradores, familiares e acionistas?

Em tempos da nova lei anticorrupção, é importante salientar que muitas das empresas brasileiras estão agindo de forma ética e responsável nos seus negócios.

Códigos de conduta e canais de denúncia são alguns dos instrumentos utilizados para prevenir fraudes e com muito sucesso.

A evolução da governança tem levado esses meios também para o seio das famílias acionistas. O comportamento adequado e correto dos acionistas é exemplo para a organização, seus conselheiros, diretores e funcionários.

As empresas brasileiras estabeleceram seus procedimentos para preservar a correção nos negócios muito baseada na cultura de confiança nas pessoas. Não vejo problema nisso. Pelo contrário. O exemplo, a correção e a ética nos negócios dificultam muito a ação dos desonestos. Porém, o mercado, os investidores e os stakeholderes, de maneira geral, não aceitam como suficiente essa prática. As empresas brasileiras ainda estão se adaptando ao modelo anglo-saxão de confiança nos controles, onde os processos podem ser auditados e comprovados.

Confesso que não estou convencido de qual dos modelos funciona melhor, mas como as empresas devem ao mercado e a si mesmas a demonstração de transparência, não há alternativa: há que implantar controles eficazes para evitar erros e fraudes.

É fundamental que os empreendedores que estão se estruturando, iniciando seus novos negócios ou mesmo aqueles já estabelecidos ou ingressando nas empresas de suas famílias, tenham a consciência de que o mundo está mudando. As questões relacionadas à sustentabilidade, diversidade e outras não se manterão mais se os princípios éticos, com valores muito fortes, não estiverem claros e efetivamente praticados. E tudo começa na atitude das pessoas, respeitando as normas de trânsito e as regras básicas de conduta, como não jogar lixo na rua e não “furar” filas. Respeitando as pessoas por mais simples que sejam.

Assim as coisas começam a se transformar. As empresas brasileiras podem ser um ótimo canal para que se comece a mudar as coisas neste nosso Brasil. Pois, se continuamos esperando pelos Governos, nada tende a acontecer.