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Fórum da Liberdade Insights

O povo está nas ruas, mas o que reivindicar?

Daniel Goldsztein, estudante de economia e Associado do IEE

          O povo foi às ruas. Os motivos são diversos, mas o sentimento generalizado é de que o povo brasileiro está cansado. Nesse momento, então, pode surgir  a oportunidade para grandes mudanças, porém devemos ter cuidado com o que pleiteamos.

          Tomemos por exemplo o estopim do movimento, o aumento de R$ 0,20 nas passagens de ônibus, por exemplo. De modo geral, a população pedia a diminuição da tarifa e acabava por fugir da questão central do problema, que é o monopólio do setor e a forma como é conduzido todo o processo.

          Os protestantes reclamam do processo criado pelo Estado, que não está prestando um serviço bom e que ainda por cima é caro, e pedem então por mais Estado. Qual o sentido nisso? Se não estamos contentes com algo, devemos pedir mudança, e não a manutenção ou uma presença ainda maior do sistema vigente.

          Um “canetaço” do mesmo governo que administra o serviço até pode diminuir o preço, mas certamente essa redução virá com uma mudança na qualidade do serviço, ônibus pararão de circular e os que continuarem ficarão mais lotados, para diminuir os custos da empresa.

          Saindo um pouco do estopim, o movimento tem tudo para mudar ou pelo menos iniciar uma grande mudança nesse país, mas temos de ter cuidado para não pedirmos mais Estado em nossas vidas. A reivindicação principal que deveria ser feita e aos poucos está surgindo em meio aos protestos é o fim do voto obrigatório. Talvez esse seja um dos mais difíceis de conseguir, pois é o diamante guardado a sete chaves pelos populistas, aqueles que conseguem votos suprindo necessidades de uns à custa de outros.

          Acabar com o voto obrigatório é diminuir, e muito, o voto de cabresto. A não obrigatoriedade do voto faz com que apenas quem tenha, em teoria, um real interesse por mudança e conhecimento vá votar.

          Os protestantes têm de refletir um pouco mais sobre o que pedem, pois a maioria das reivindicações é, em uma analogia, como tratar o sintoma de uma doença. É como dar Tylenol a uma pessoa com febre sem verificar que ela possa ser sintoma de uma apendicite, por exemplo.

          Pedir o fim da corrupção, a condenação dos mensaleiros e a ficha limpa ser cumprida é atacar sintomas. É ser muito ingênuo acreditar que a solução é somente tirar a pessoa corrupta do seu cargo e procurar alguém que será honesto. Corrupção só existe porque políticos têm poder demais, e por ter tal poder eles podem privilegiar tal pessoa ou empresa caso em troca lhe seja dada certa quantia de dinheiro ou qualquer outro favor não monetário. Essa é a doença, muito poder do Estado. Condenar o político, colocar na cadeia e votar em outro que “parece” ter um discurso honesto é atacar o sintoma, e assim não iremos a lugar algum. É natural, a meu ver, que grande parcela dos políticos se corrompa diante de tal poder que detêm em seus cargos.

          Esses movimentos que estão se espalhando é um indício de que não estamos satisfeitos com a situação vigente, e devemos aproveitá-los. Temos de cuidar o que pedimos – mais Estado é algo um tanto perigoso.