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Fórum da Liberdade Insights

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O empreendedorismo como motor do progresso

Eduardo Reimann, empresário e Associado do IEE

Escreveu Ayn Rand no romance “A Nascente”, de 1943, em um dos diálogos protagonizados pelo personagem Howard Hoark, um arquiteto jovem e idealista: “Da menor das necessidades à mais alta abstração religiosa, da roda ao arranha-céu, tudo o que somos e tudo o que temos vem de uma capacidade humana – o funcionamento da mente racional”. Significa dizer que a força do homem é perceber o ambiente no qual está inserido e moldá-lo à sua vontade. E é esse autointeresse, o egoísmo, que leva o indivíduo a utilizar os recursos com os quais a natureza o equipou para buscar a satisfação das suas necessidades, a maximização de seu bem-estar. Daí a inquietude e a busca imemorial por melhoria e progresso que leva homens a se aventurarem por novos caminhos munidos apenas de sua visão.

O estudo dessa faceta do comportamento humano foi o que fez de Joseph Schumpeter, um dos mais reputados economistas de todos os tempos, ser especialmente conhecido pelas suas teorias sobre as atividades que levam ao crescimento econômico e melhoria do padrão de vida nas sociedades capitalistas. Suas teorias são centradas na inovação e no empreendedorismo, definindo esses conceitos como principais motores do desenvolvimento, no qual a competição entre os participantes do mercado desperta o desejo de buscar novas formas de fazer negócio, aplicação de inovações e tudo o mais que possa dar vantagem competitiva e lucro ao empreendedor, de modo a aumentar o seu padrão de vida. Ele descreve como um capitalismo evolutivo, em permanente mutação e avanço tecnológico, em que cada passo adiante destrói ou diminui a importância das velhas estruturas e técnicas. É um processo reorganizador que destrói e faz surgir, por vezes, indústrias inteiras, de forma chocante e impiedosa, demandando das pessoas cada vez mais adaptabilidade e antevisão. A destruição criativa, como se convencionou chamar, acontece de forma orgânica e natural com a busca do homem pela sua própria felicidade e bem estar.

O autor austríaco Ludwig von Mises dedica bastante espaço em sua obra “Ação Humana” ao empreendedor e ao seu papel na sociedade. Ele nos diz que a função específica do empreendedor, motivado pela busca egoísta de lucrar e acumular riqueza, consiste em determinar o melhor emprego dos fatores de produção. Isso é feito interpretando os sinais enviados pelo mercado via preços que são estabelecidos pelas transações voluntárias dos indivíduos. O mercado adapta-se constantemente a novas condições e premia aqueles mais capazes de entender esses sinais e utilizar de forma mais eficiente os recursos escassos. Mises nos diz que o empreendedor é um especulador que lida com condições futuras sempre incertas, seu sucesso ou fracasso dependendo da correção das suas antecipações sobre a demanda futura dos consumidores. Nesse sentido, o empreendedor está sempre submetido ao mercado e só tem ganhos se melhor servir os consumidores, adaptando-se às suas vontades presentes e tendo de provar o seu mérito diariamente, sob pena de ser suplantado.

Essa vontade e aptidão para empreender estão relacionadasa características do indivíduo, como proatividade, tolerância ao risco, inventividade e visão, porém existe também a influência do ambiente onde está inserido o empreendedor. Vejamos a nossa situação local: o Brasil é frequentemente apontado por pesquisas de toda sorte como um dos países onde as pessoas têm mais disposição de enfrentar os riscos e dificuldades de abrir o seu próprio negócio; entretanto, o arcabouço institucional joga contra, dificultando ou inviabilizando possíveis oportunidades percebidas pelos indivíduos. Empreendedores no Brasil enfrentam dificuldades monumentais desde a abertura de seus negócios, passando pelas operações diárias, até o momento do encerramento da empresa. Eles têm de encarar, por exemplo, a burocracia de legalização, a insegurança e inflexibilidade ao contratar mão de obra, complexidades sem tamanho para atendimento das obrigações fiscais, insegurança jurídica e morosidade para a resolução de eventuais litígios. Na pesquisa da organização Doing Business para o ano de 2014, o Brasil figura na 116ª posição entre os 189 países pesquisados, ficando atrás do Paquistão e do Paraguai, por exemplo. A organização afirma que no país a abertura de uma firma toma mais de 107 dias e exige 13 procedimentos; já para a obtenção de uma licença para construir, levam-se 400 dias e somam-se 15 etapas.

É a motivação humana individual de melhorar a sua própria existência que promove o progresso material de toda a sociedade. Seja empreendendo internamente, por meio de melhorias em processos já existentes dentro de organizações, seja na aplicação prática de conhecimento e tecnologias revolucionárias, a alocação mais eficiente dos recursos escassos disponíveis promove o bem da humanidade e deve ser incentivada e facilitada. A nossa batalha deve ser para que sejam retirados os entraves à ação dos indivíduos que buscam promover essas melhorias.