PORT | ENG

Fórum da Liberdade Insights

diana_werner.jpg

Em tempo de protestos, o meu cartaz é pelo fim da microcorrupção

Diana Werner, engenheira de produção e Associada do IEE 

          Semana passada, em uma feira setorial, o assunto protestos por um Brasil mais justo não faltou. Em meio a muitas opiniões, ouvi de um amigo: “Um dia se é pedra, no outro, vidraça”. Pode ser somente um ditado “batido”, versão de muitos outros parecidos. Pode ser também o lembrete de uma característica custosa dos brasileiros, a mania de dar um “jeitinho”.

          O “jeitinho” acontece quando, em uma fila, acreditamos que passar na frente de algumas pessoas, não tem problema; quando, pedestres, atravessamos a rua em qualquer lugar, porque não vamos aumentar o caminho até a faixa; quando, ciclistas, andamos na rua com os carros, mas não respeitamos regras de trânsito; quando motoristas, se andamos acima da velocidade, afinal, o limite é sempre muito baixo. Frequentemente não damos nota fiscal. Roubamos TV a cabo em grandes quantidades. Falsificamos carteirinhas de estudantes. Batemos ponto por um colega e muitas vezes não pagamos horas extras corretamente – sempre por algum bom motivo. Por bons motivos, também pagamos colegas de Congresso para votarem em uma lei que nos interessa.

          Contestar, protestar, brigar pelos nossos direitos é extremamente importante e louvável. Como outras atividades em uma sociedade, merece respeito e segurança na sua liberdade de atuação. E aqui não posso deixar de citar outro amigo, que brinca: “Oração é uma palavra composta de duas, orar e ação”. Passeatas e outras formas de manifestações são ferramentas legítimas e necessárias no questionamento de atos do Estado. Mas elas podem ser mais eficientes se vierem junto com novas atitudes por parte da população.

          Segundo pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais e do Instituto Vox Populi realizada em novembro de 2012, 23% dos brasileiros afirmam que dar dinheiro a um guarda para evitar uma multa não chega a ser um ato corrupto. Subornar um guarda não só é um ato corrupto, como é um ato semelhante ao suborno em contextos de maior poder. Jairo Cruz Moreira, promotor responsável pela campanha do Ministério Público “O que você tem a ver com a corrupção” afirma que “muitas pessoas não veem o desvio privado como corrupção, só levam em conta a corrupção no ambiente público”. Mas é justamente a tolerância em relação aos pequenos delitos diários à nossa volta que nos deixa tolerantes aos grandes roubos e manipulações.

          Podemos pensar igualmente na visão positiva da sondagem realizada pela UFMG: 84% dos entrevistados dizem que sempre existe a chance de a pessoa ser honesta em qualquer situação. É de mais ações honestas, em todas as esferas da sociedade, que estamos precisando. Podemos substituir infrações de trânsito por gentileza e respeito. Podemos substituir as compras no comércio irregular por aquelas em estabelecimentos que, além de dar nota fiscal, têm um atendimento diferenciado. Vamos levar mais a sério a possibilidade de analisar um produto não só pelo preço, mas pela qualidade e pelo respeito que a empresa produtora tem com as pessoas e o meio ambiente. Reclamar de um serviço mal prestado, seja público, seja privado, dá trabalho, mas traz resultados positivos e de longo prazo. A eficiência produtiva compensa, com folga, a sonegação de impostos. Além de ser saudável para a empresa e trazer menos riscos, é a competitividade que o mundo de hoje exige.

          Na vida em grupo, regras são necessárias. Mesmo que poucas, em algum nível elas são necessárias. Como podemos cobrar que leis sejam cumpridas se não somos capazes de cumpri-las? Como podemos fazer uma reforma política sem fazer junto uma revolução cultural? Enquanto acreditarmos que o fato de não concordamos com alguma regra nos avaliza para o não cumprimento dela, não teremos representantes nos três poderes agindo com ética e competência. Enquanto formos o país das leis que “pegam” e das leis que “não pegam”, não daremos a devida seriedade ao momento em que as leis estão sendo feitas e aprovados. O exemplo dos questionamentos que a população fez recentemente em relação à emenda constitucional que tramitava no Congresso deve ser tornado realidade permanente. Independentemente de ser PEC ou outra forma de legislação, o importante é o hábito de discutir e verificar o que está sendo feito pelos políticos que elegemos para nos representar.

          Em tempo de protestos, meu cartaz é pelo fim de todas as formas de corrupção. Vamos para a rua gritar por melhores serviços, por justiça e por tudo o que for para o bem comum. Vamos entrar em casa e pensar o que podemos fazer para contribuir com o fim da corrupção. Vamos entrar em casa e tirar os pequenos ou grandes desvios do nosso cotidiano. Vamos para a rua exigir atitudes honestas dos políticos e de todos à nossa volta.