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Fórum da Liberdade Insights

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Empreendedorismo privado X empreendedorismo estatal

João Pedro Kulkes, empresário e Associado do IEE

Não existe pessoa mais inquieta que um empreendedor. Para exemplificar, basta buscarmos algumas definições de suas características em um dicionário: “Capacidade de liderança, criativo, paixão na área em que atua, visão de futuro, persistência e coragem para assumir riscos”. Dessa forma, podemos compreender que o empreendedor nunca está satisfeito: mesmo que tenha atingido sucesso em seu empreendimento, ele visa sempre aprimorar o mesmo por meio de novas ferramentas ou ainda buscar novas oportunidades no mercado. Esse estado de espírito incansável acarretou o desenvolvimento inimaginável da sociedade moderna. Não precisamos nos ater a um grande acontecimento tecnológico, apenas olhar o quanto a sociedade se transforma a cada período de 20 anos. Mesmo se quiséssemos, não poderíamos prever com que tipo de carro andaremos em 2033, ou como estaremos nos comunicando nesse mesmo ano. Duvido que alguém imaginasse em 1993 que o celular, artefato na época restrito a poucos afortunados, existiria em número maior que o de habitantes do nosso país, e ainda, que a ligação seria apenas uma das inúmeras funções que tal aparelho exerceria.  Tudo isso se deu unicamente em consequência da vontade de cada cidadão de ser melhor, buscar a excelência.

Em contrapartida, há um elemento estranho quando se discute o tema empreender, porém que insiste em tentar intervir no mercado com a justificativa de fomentar esse processo. Estamos falando do governo, que vê uma oportunidade de ser popular selecionando empresas para subsidiar crédito barato, alegando ser um catalisador do empreendedorismo. Dessa forma, o governo consegue anunciar linhas de créditos espetaculares por meio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), porém poucos conseguem notar que o efeito desse crédito é o contrário de desenvolvimento e benefício social. Quando uma instituição comandada pelo governo tem o aval para oferecer crédito mais barato a apenas alguns em detrimento de outros, é evidente que o subsídio é pago por aqueles que não estão recebendo o benefício, uma vez que pagam impostos como todos e buscam empréstimos apenas pela linha normal oferecida pelo mercado. Além do mais, abre-se espaço para o lobby e a corrupção, situações costumeiras no Brasil. São públicos e evidentes os casos de empréstimos do BNDES de valores astronômicos e com pouca avaliação de risco, vide caso Eike Batista, que recebeu empréstimo de mais de 10 bilhões de reais do banco. Se comparado o valor tomado pelo empresário e sócio do governo em diversos empreendimentos ao valor de R$ 32,3 bilhões de reais emprestado a todas as empresas brasileiras de micro e pequeno porte no primeiro semestre de 2013, o benefício ao empresário Eike Batista é uma afronta para toda a sociedade brasileira.

Os céticos do livre mercado neste momento questionam: quem educará e financiará tantos empreendedores que não têm capital suficiente para investir em seus projetos? A resposta é simples, tanto para a formação quanto para o financiamento. No primeiro caso, a educação empreendedora surge de uma necessidade latente no mercado, e inúmeros casos podem exemplificar isso: a AMCHAM, por exemplo, é uma ONG americana trazida para o Brasil pelo empresário Marcel Telles, sócio da Inbev e um dos dez homens mais ricos do Brasil. Marcel sentia a necessidade de uma mão de obra mais qualificada e que pudesse ser preparada no próprio país. A organização capitaneada por ele no Brasil tem uma resposta incrível, com inúmeros jovens cadastrados e com palestrantes inspiradores. Outro exemplo é o instituto para o qual escrevo, que tem como finalidade incentivar e preparar novas lideranças com base nos conceitos de economia de mercado e livre iniciativa. Outros grupos de estudos, como o “Ciclo Empreendedor”, do qual eu também participo, são desenvolvidos apenas por uma necessidade que o próprio mercado acaba por suprir.

No caso de financiamento de um empreendedor, a capacidade de resolução do mercado é ainda mais farta. Inúmeros investidores têm reservas de dinheiro, porém carecem de ideias para investi-lo. Nesse ponto, o risco é assumido tanto pelo investidor que coloca o seu dinheiro quanto pelo empreendedor, que está colocando sua ideia de negócio e sua reputação em jogo. No caso do investimento advindo do BNDES, o banco geralmente não tem a mesma precaução que um investidor comum, pois ele é mais um dos tentáculos sustentado pelo governo. Por diversas vezes, ou o investimento não é submetido à análise de risco necessária, ou é feito de forma a agradar um parceiro do governo, como o caso citado anteriormente.

Para não permearmos apenas o campo das ideias, vamos a um exemplo prático de sucesso de um empreendimento criativo da iniciativa privada em um setor comandado e regulado pelo governo. O sistema de transporte público no Brasil é deficiente, isso não é nenhuma novidade. Entretanto, ultimamente ficou complicado também encontrar táxis disponíveis em horários de pico e em dias de chuva. A alternativa que era fácil se tornou escassa e também cara, devido às inúmeras intervenções de preços impostas pelos governantes a esse tipo de transporte. Porém, o problema da escassez do transporte não estava em seu preço competitivo comparado ao do ônibus, mas sim na falta de produtividade na relação táxi/cidadão. Por exemplo, filas de táxis esperavam parados em pontos como aeroportos, casas noturnas e shopping centers. A espera por um passageiro não era produtiva; enquanto isso, possíveis passageiros em locais distintos da cidade digladiavam-se, acenando na esperança de que algum táxi os atendesse. Captando a necessidade do mercado, o setor privado desenvolveu aplicativos que se tornaram uma ferramenta de gestão excepcional tanto para taxistas quanto para usuários. O aplicativo é de fácil navegação, e o taxista paga uma pequena taxa para cadastrar seu usuário e então ser rastreado por GPS. Assim, quando está ativo no sistema, é alertado sobre usuários necessitantes do seu serviço nas redondezas. Ao sinalizar que aceita “pegar a corrida” (ao apertar um botão no próprio aplicativo), o taxista estará apto a buscar seu cliente em uma distância curta, o que resulta em ganho de efetividade e produtividade.

As soluções para problemas cotidianos da sociedade foram sempre absorvidas por cidadãos inquietos que visaram empreender e lucrar com algo necessário para todos. O exemplo dos táxis, a comunicação por internet e celulares, o próprio desenvolvimento de novos métodos de ensino, são casos que demonstram ao que realmente se deve o desenvolvimento da nossa qualidade de vida. Não podemos permitir que poucos governantes decidam por nós qual fatia do mercado deve ser mais fomentada e estimulada em detrimento de outras. Se um empreendedor não conseguir que seu negócio sobreviva sem uma linha de crédito especial, foi porque ele se aventurou em um empreendimento errado.