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Fórum da Liberdade Insights

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Educando crianças para não serem empreendedores

Ricardo Petersen, consultor da Falconi Consultores de Resultado e Associado do  IEE 

O empreendedor, de acordo com Schumpeter, é aquele que destrói a ordem econômica existente pela introdução de novos produtos e serviços, pela criação de novas formas de organização ou pela exploração de novos recursos materiais. Dessa forma, impulsionado por uma paixão, o empreendedor é aquele que, por meio de sua iniciativa, gera valor e transforma o mundo ao seu redor.

Nesse sentido, busca-se entender de que forma a educação brasileira foi desenhada, para contrastar os resultados provindos desse modelo frente ao perfil do empreendedor.

Não é preciso estudar muito a literatura para se conceber conclusões acerca de nosso modelo educacional. Todos nós tivemos nossas experiências ao longo de toda a nossa infância e adolescência. Lembro até hoje dos poucos dias em que nos era permitido escolher as atividades que seriam realizadas; logo após o maternal, as coisas tornam-se mais rígidas: raramente éramos incentivados a escrever uma redação livre sobre o tema que mais nos interessava, a atingir resultados por meio de atividades práticas ou instigados a explorar mais profundamente assuntos que não fossem cair nas provas. Para completar, as causas das tediosas aulas sempre foram, e ainda são, direcionadas aos alunos, desinteressados e que “já não respeitam os professores como antigamente”.

É nesse sistema que criamos hoje uma horda de pessoas apáticas e anestesiadas, aquelas que ambicionam no máximo “obedecer cegamente aos seus chefes” e o “chegar da sexta-feira”, repetindo tarefas sem realizar qualquer julgamento. Esses indivíduos se tornam meros meios para fins de outros. Não entendem e têm aversão à responsabilidade, não sabem tomar decisões, definir objetivos, não fazem o que gostam e não têm coragem para tomar riscos.

Bryan Caplan, economista e professor da George Mason University, destaca que as crianças na escola são consideradas apenas um “potencial”, simples “blocos de argila”, prontos para serem moldados em “maravilhosas esculturas” por seus professores. Nesse contexto, a maioria dos professores com seus livros e apostilas representam autoridade máxima em sala de aula, e detendo uma visão minimalista sobre os alunos, ditam as únicas respostas corretas para todas as perguntas na Terra.

Na mesma linha, Ken Robinson, consultor em educação, constata que o sistema educacional mundial foi desenvolvido com base nos conceitos da revolução industrial. A escola é dividida e organizada em matérias, os alunos são “produzidos” em bateladas, todos devem bater o ponto e devem se mover assim que o sinal tocar; as regras e os padrões são claros e não devem ser transgredidos, os alunos são supervisionados por auxiliares e professores, e por fim a conformidade deles é avaliada por meio de testes de qualidade. Isso demonstra que continuamos com o mesmo modelo do passado e que, enquanto não tivermos uma educação inovadora, dificilmente teremos como resultado mais crianças empreendedoras.

Para ilustrar as consequências dos atuais modelos de educação, existe hoje uma epidemia do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) no oeste americano, onde as crianças, vítimas de um sistema ineficiente e do diagnóstico equivocado por parte de médicos, são entupidas de remédios como Ritalina para que sejam capazes de “prestar atenção” nas aulas.

Em outro caso, um teste de criatividade, similar aos conduzidos pela NASA para contratar cientistas inovadores, foi conduzido e acompanhado por George Land e Beth Jarman numa amostra de 1.600 pessoas. Constatou-se que 98% das crianças de até 5 anos foram capazes de atingir o estágio de gênios da criatividade, enquanto apenas 30% das de até 10 anos, 13% de 15 anos e singelos 2% dos adultos atingiram resultados semelhantes.

Esses indícios evidenciam que, ao mesmo tempo em que vivemos em uma época de alta capacidade de inovação, ainda temos uma grande oportunidade a ser capturada. E basta sairmos da esfera burocratizada e centralizada de nosso sistema educacional que começamos a enxergar o caminho para o avanço necessário. São iniciativas como a de Miguel Nicolelis, que associa a neurociência à educação; o Kinect for education, que busca unir o videogame ao conhecimento; a Khan Academy e Coursera, que potencializam o ensino a distância; Arduino, uma espécie de lego eletrônico que possibilita o rápido aprendizado em eletrônica; e inúmeras outras que irão desbancar o nosso modelo educacional, transformando completamente o que entendemos por ensino.